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Internacionalizar o português brasileiro: um novo imperialismo da Língua?

Internacionalizar o português brasileiro. A nação com maior número de falantes de português arrisca-se lançar caravelas para difundir a Língua em separado dos movimentos da Lusofonia.

Por um lado, é uma estratégia de difusão da Língua, de mostra da diversidade. Mas por outro, é uma nova visão voltada para um só país, como se a Língua fosse somente de um recanto da Terra, sem uma apreensão do mundo da Língua, de uma Língua do mundo. Uma nova roupagem para difundir uma abordagem imperial dentro da Língua por um só país. Uma visão que pode mostrar-se contrária ao princípio de construção conjunta da Língua que marca a Lusofonia.

Na era globalizada, em que virtualmente fronteiras são postas abaixo, ainda há fortes ecos de nacionalismos da Língua. Trata-se da retomada de uma visão romântica, da Língua que deve ter cor local para expressar a emoção.

Foi assim no Romantismo, época do desejo de expressões nacionais, quando deveria haver uma Língua para cada nação. Com o Modernismo do século XX, ganhou nova roupagem, de afirmação da expressão livre, dos rincões, dos jargões, das marcas próprias de um povo. Infelizmente, essa mesma roupagem que pregava a liberdade criativa também foi usada por ideologias que pregavam fronteiras fechadas.

Hoje, a liberdade de expressão artística da Língua está consolidada. Os povos podem ir além do horizonte com sua Língua e com liberdade. Mas não se reciclou o pensamento sobre uma Língua que ganhou tantos donos quantos seus usuários. Ainda não foram transpostas as velhas fronteiras de dentro do português. É querer retomar cizânias já superadas pelo contorno do tempo, pela era presente que abomina impérios nacionais.

Tanto que, nos meios virtuais, são vistas opções de páginas de rede, de logiciais, de aplicativos em inglês, em espanhol, em francês, em alemão, não de um ou de outro país, mas de uma língua. Mas no mundo digital há páginas em português e em português brasileiro. Como se fossem duas Línguas sem que uma se bicasse com a outra.

Como uma política coesa da Língua fez falta! É tarefa para ontem. Em vez disso, persiste a visão de divulgar “duas Línguas Portuguesas”, em vez de se buscar a união. Mantém-se dos dois lados do Atlântico uma cisão linguística interna que só engessa o seu ensino, a sua expansão. A Língua Portuguesa pena por não ter em sua história, em seu passado, uma instituição de visão unificadora nesse sentido, algo do porte de uma Academia Francesa ou de uma Real Academia Espanhola.

Antes, havia uma visão passadista, colonial da língua, de que o português só se fala e só se escreve em Portugal. Agora, vai crescendo no Brasil a visão de difundir um “português brasileiro” de domínio, que faça questão de ser diferente do resto do mundo. Trata-se, tão somente, de uma nova visão mandonista da Língua que foi para o outro lado do oceano e que também destoa da visão original de Lusofonia.

A Língua Portuguesa deixou há muito de ser patrimônio de uma nação só. E tal ideia ficou ainda mais anacrônica com o advento da comunicação instantânea global, das vias de informação que temos hoje e que percorrem o mundo. O português não é só de Portugal, nem só do Brasil: é uma Língua do mundo. Não é posse de um povo só, é um patrimônio compartilhado entre povos, que há séculos acostumou-se a ser transversal a culturas.

O português deve ser pensado como uma língua mundial, em que todos os que por ela bem se expressam têm o direito de serem seus proprietários. Este é o sentimento lusófono, de crer em um ideal, o da unidade essencial da Língua. Unidade essa que, intrinsecamente, já mostra o reconhecimento de sua diversidade.

O pensamento ideológico de divisão, pelo contrário, constitui um retrocesso, um retorno de um não desejado sentimento imperial nacionalista de dentro da Língua, vindo de apenas uma parte da Lusofonia.

Vale retomar aqui as palavras do linguista da Academia de Ciências de Lisboa, João Malaca Casteleiro, que traduzem sabiamente a visão da Lusofonia, qual deveria ser o império da Língua: “Portanto aquele que era o Quinto Império na perspetiva de Vieira, depois de Pessoa, que retomou essa ideia, pode ser o império da Língua, não é? Um império sem imperador. A Língua será realmente um imperador.”

Postado por Ronaldo Santos Soares – Defesa da Língua Portuguesa
Publicado em: 14 ago. 2012.

Fonte: ventosdalusofonia.wordpress.com

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